No lado oposto, um moço bem despojado [despojado, riponga mesmo!] caminha com suas botas enlameadas e com uma bolsinha onde sabe lá o que se esconde dentro. Como a dama de vermelho e botas pretas, tem um olhar tranquilo, olha para um telão, acredito fielmente que está a ver mais que apenas letras, porém eu [invejoso], só consigo ver letras, gostaria de ver mais.
Desvio meu olhar, uma mocinha em vestido de boneca corre em direção a duas senhoras, chegando perto grita UHAA! Todas riem, se abraçam, juntam a bagagem e se vão. Um senhor muito distinto, portando uma bengala lê atentamente o jornal, suas sobrancelhas exibem preocupação, mas sua face mostra uma doçura sem fim, de quando em quando, dá um gole em um café, ou chá? Ou rum? Bem não sei.
Oficiais passam por mim, senhoras empurrando um carrinho, um senhor gordo do lado de fora anuncia o fim de mundo, como se ninguém soubesse, ou melhor, como se só ele soubesse.
A estação moderníssima perde um pouco no charme para uma estação do século 19, mas tem seu encanto e seu próprio carisma. Não há sapateiros, correios, banca de flores, bancos em madeira e metal, luminárias a gás com sua chama verde. Não há senhoras em longos vestidos, banca de peixe, ou um moleque em calças curtas furtando a carteira de quem passa. Não há telégrafo, não há outro rapazote gritando extra extra. Não há fumaça saindo das chaminés dos trens, nem mesmo há chaminés.
Em vez dessas coisas antigas e bonitas, eu vejo uma loja de sushi, no melhor estilo japonês, ou seja, bem louca. Uma pilha de lojas de conveniência, há uma banca de chapéus, gravatas, lenços e cintos que resiste ao tempo com preços exorbitantes. Grandes franquias de café, oficiais com seus coletes verde fluorescente, como se não bastasse o chapéu que parece uma bacia com um distintivo encravado.
Alguns funcionários do Jornal gratuito distribuem exemplares, de forma silenciosa e educada. Os guichês que vendem passagens estão sendo substituídos por máquinas automáticas, onde senhores e senhoras idosas se esforçam para enxergar as letras. Os trens são rápidos, precisos e silenciosos. Os apitos se mantêm. assim como os trilhos, mas a fumaça se foi e somente a eletricidade corre nas veias dos monstros de ferro. Luminárias de led clareiam até a alma do demônio, não há penumbra, nunca. Bancos de metal, no formato da curva de sua coluna esfriam a traseira de quem senta. Os caixas eletrônicos são os mais frequentados, e nem mesmo os pombos deixaram de voar furtivamente pela moderníssima estação. Câmeras por todas as partes, registram o andar furioso de uma sociedade sedenta por informação, mas impaciente para desfrutar os pequenos prazeres que uma estação de trem pode oferecer... ahhh século 19, porque fugiu de mim, sem que eu se quer tivesse a chance de te conhecer?
Um comentário:
passou por todos nós. como um trem bala, o apressadinho. eu, que não tive tempo de flanar pela Paris fin du siècle, hoje dou um sorriso infantil quando o recepcionista do hostel em Buenos Aires diz que tem um bonde aqui perto que eu posso pegar.
Postar um comentário